26 de jul de 2012

A MENINA COM SÍNDROME DE DOWN



            Manoel Carlos não deveria escrever telenovelas. Deveria ser professor de todos os que as escrevem e os que pretendem fazê-lo. Daria um curso gravado, que seria repartido por alunos, escritores e candidatos a autores, universitários de letras e comunicação. Em DVD, as aulas ficariam para sempre. 
            Em Páginas da Vida, no auge de sua criatividade, Maneco está a abordar, com valor, sabedoria e coragem, os seguintes temas, entre outros: crianças e adolescentes com síndrome de Down; a tragédia da África e a indiferença com que o mundo a trata; os dramas internos de uma família grande conduzida por este ser complexo que é um pai ao mesmo tempo autoritário, mas bom de caráter e coração; o deserto de sentimentos, a agressividade e a indiferença pela dor alheia que a vida moderna pode gerar em algumas pessoas. E vários outros subtemas de valor ético e visão humanista.
            Só espero que, entrando a novela em velocidade de cruzeiro, como sempre acontece, ele não seja pressionado pelas pesquisas a mexer na trama, acabando por resvalar para o inverossímil ou o enlouquecimento da história...
            Li por aí algumas reportagens, inclusive entrevistas dele, que me assustaram.
Mas o caso do abandono covarde, do preconceito ou da adoção amorosa de uma criança com Síndrome de Down todas as noites me traz reflexões antigas sobre esse ser especial que é a pessoa diferente.  E diferente, para mim, não é apenas quem sai da chamada normalidade física. Existem os interiormente diferentes (poetas, pintores e músicos em geral). Dizia eu que a carga de preconceitos vários é tão grande, quando a diferença é de natureza física, que ali se instala uma das maiores fontes de sofrimento humano.
            O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações, os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam)  nos seus grandes modificadores. Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente, antes mesmo dos demais começarem a perceber.
            Diferente é o que se emociona, enquanto todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam. Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito rotiniza. Sofre onde os outros ganham. Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, anões, portadores de síndrome de Down, machucados, engordados, anoréxicos, inteligentes em excesso,
 bons demais para aquele cargo, excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba.
 Aí estão, doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo Ser.  
            A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes.          
            Jamais mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo (o amor) depois.

(( Artur da Távola ))

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