30 de ago de 2012

Sobre flores, rosas e espinhos



          Amor que é amor dura a vida inteira. Se não durou é porque nunca foi
amor.
          O amor resiste à distância, ao silêncio das separações e até às
traições. Sem perdão não há amor. Diga-me quem você mais perdoou na vida, e eu
então saberei dizer quem você mais amou.
          O amor é equação onde prevalece a multiplicação do perdão. Você o
percebe no momento em que o outro fez tudo errado, e mesmo assim você olha nos
olhos dele e diz: "Mesmo fazendo tudo errado eu não sei viver sem você. Eu não
posso ser nem a metade do que sou se você não estiver por perto."
          O amor nos possibilita enxergar lugares do nosso coração que
sozinhos jamais poderíamos enxergar.
  O poeta soube traduzir bem quando disse: " Se eu não te amasse tanto
assim, talvez perdesse os sonhos dentro de mim e vivesse na escuridão. Se eu
não te amasse tanto assim talvez não visse flores por onde eu vi, dentro do
meu coração!"
          Bonito isso. Enxergar sonhos que antes eu não saberia ver sozinho.
Enxergar só porque o outro me emprestou os olhos , socorreu-me em minha
cegueira. Eu possuía e não sabia. O outro me apontou, me deu a chave, me
entregou a senha.
          Coisas que Jesus fazia o tempo todo. Apontava jardins secretos em
aparentes desertos.
          Na aridez do coração de Madalena, Jesus encontrou orquídeas
preciosas. Fez vê-las e chamou a atenção para a necessidade de cultivá-las.
          Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em
lugares que consideramos impróprios.
          Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada
detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada
dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de
flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não
souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois...
          Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou, e
descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo, nem tampouco fora do
cultivo.
          Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora
de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras...
          Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a
atenção necessária para o cultivo daquela roseira.
          A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são
belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas...
          Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá que saber que com ela
vão inúmeros espinhos.
          Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incômodo dos
espinhos... ou não.

      (Pe. Fábio de Melo)

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