25 de jun de 2013

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ESPINHOS



Lembro de quando era criança e ouvia tanto aquela canção que dizia: "Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer!"
        Lembro ainda de minhas irmãs dizendo que durante muito tempo essa canção ( Pra não dizer que não falei de flores) foi proibida pelos governantes do país, porque estimulava a reação em massa contra a ditadura. Fiquei chocada ao saber disso, pois a canção não mostrava nenhum palavrão ou pornografia... Achava linda e, apesar de minha pouca idade na época, o significado dela já me transmitia uma enorme sensação de força e união.
        Nossa, quando olho para os dias atuais, me pergunto: E hoje?
Será que não temos a "tal ditadura"?
Acredito que ela só ganhou outra roupa. Já não são mais apenas soldados camuflados. Agora, além de civis, a camuflagem está vestindo as idéias, informações, sonhos, esperanças, campanhas de saúde, campanhas políticas. Nada, nada mesmo é o que parece ser... Tudo se perde através das máscaras de carnaval, das alegorias que desfilam em nossas ruas e televisores durante o ano todo. Agora só existem dois tipos de fantasia: de carnaval político (usadas por todos, menos o povo) e as de palhaço (usadas só pelo povo, o qual paga para ver a palhaçada dos outros fantasiados). A ditadura só tem máscara de democracia. E nós? Encantados com o show, assistindo tudo enquanto dizem a todo instante para o nosso cérebro: "já somos felizes porque não há mais ditadura e, seremos ainda mais felizes se continuarem sendo nossos conformados "marionetes". Fazemos de conta que tudo funciona e vocês fazem de conta que acreditam!"

        Arranjaram um jeito de nos prender sem violência corporal, de exilar todos que podiam "acordar" uma grande massa dizendo que o exterior é melhor do que aqui... Eles falam: "Não vê que está desperdiçando energia e tempo com pessoas que não querem acordar?" "Pra quê esperança com o que está perdido?" E assim, o povo fica conformado e aprisionado aos "cordões imaginários", sem direito à defesa porque foi escolha própria. Quer ditadura maior que essa?!!!  Meu Deus! Alguém ainda conhece aquela canção e o que estava por trás dela? Ah, havia esquecido que desde a "boquinha da garrafa" o acesso à boa música ficou mais restrito. E, de novo, por escolha do próprio povo!!! Aquele mesmo povo que não está mais "deitado em berço esplêndido" e sim parece mesmo é estar enterrado abaixo de um berço o qual entregamos, de "mão beijada", aos nossos "ventríloquos".
E ainda querem convencer de que a única arma que temos para conseguir liberdade é o voto! Esse negócio de voto... Será que existe mesmo? Será que não é só uma peça da fantasia? Ninguém sabe mais no que acreditar e agora, eles ficam desesperados tentando fazer o povo sair de casa para votar em "ninguém sabe quem". Chegaria a ser "cômico se não fosse trágico".
        As palavras do dicionário não têm mais o significado que estão lá. Imagina só que trabalhão daria para revisar todos os dicionários brasileiros existentes! Para cada palavra, vários sentidos relativos ao interesse de quem lê. Exemplo: Honestidade - Depende que lado você está. Se estiver do lado mais forte, é tudo aquilo que está fielmente ligado aos seus interesses. Caso esteja do lado mais fraco, é tudo aquilo que você deve pagar para manter os mais fortes. Loucura saber que os culpados de tudo isso somos nós mesmos... Por isso ninguém reage, por isso essa passividade toda perante ao que está acontecendo... Por isso sofremos calados na própria vergonha de não ter lutado... A maioria de nós aderiu a tudo isso e não pode dar nem exemplo do contrário... Apoiamos o egoísmo, a falta de ética, à falta de valor à vida. Esquecemos o real significado de generosidade, amizade, educação, filho, mãe, pai, amor, liberdade, verdade, amor próprio, princípios da boa convivência em família, na empresa, na igreja, no esporte. Em que tipo de animal nos tornamos, se é que realmente a teoria da evolução existe? O que é racional naquele tal dicionário? Que referencial podemos dar aos que virão? Se não começarmos por nós mesmos e sempre esperarmos pelos outros, onde isso tudo vai parar??? Respostas passaram a ser coisas muito relativas para se entender...
        Tenho orgulho dos que estavam acordados, vivos e ativos na época da ditadura e tenho vergonha do que nos tornamos hoje. Não quero acreditar que só me resta caminhar, cantar e seguir a canção . E você?
Este artigo foi elaborado por: Ana Paula Colares de Melo em 18/09/2006.
 

 Ana Paula Colares de Melo 

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