25 de set de 2009

Nunca se sabe onde está uma despedida.
Até no afã do até logo pode esconder-se um nunca mais. Na frase infeliz, na simples conversa, algo pode estar morrendo, do amor ou da amizade.

Há despedidas que não são patentes.
Não se lhes percebe o estalo do afastamento, que pode estar no instante de mau humor, na resposta infeliz, na alegria que não se repete ou na palavra que deixamos de dar e receber.
Às vezes, está na palavra que dizemos.

Nem sempre as pessoas se separam: esgarçam-se às vezes.
Viver esgarça.
É algo que se afasta sem romper completamente.
Também no que esgarça pode haver despedida pois, embora não haja perda de matéria, nunca mais será como antes.

Despedir-se é sutil, nem sempre aparece.
Seres em mutação, vivemos a mudar sem saber.
Na mudança, transforma-se em recordação o que antes era união e vontade, amizade ou convivência.
Tudo faz-se retrato, álbum, caderno, poema, carta, saudade ou memória.
A despedida não é por querer: acontece a despeito.
Um simples "até já" pode conter inimagináveis nuncas.
Ou sempres.

Maravilhosa e cruel a vida! Tudo pode acontecer.
As ligações, salvo poucas, fazem-se precárias e falíveis.
Nosso destino é preso a acontecimentos semicontroláveis.
Ou impulsos, cansaços, e as discordâncias, são imprevisíveis.
E geram despedidas antes insuperáveis.

Ninguém sabe de quem se afastará.
Nem quais as amizades e amores de toda a vida, nada obstante existam.
Raros captam a dor que estala em cada hipótese de despedida.
Separar-se contém sempre a hipótese da despedida.
Por isso, uma dor sempre se infiltra em cada afastamento.
Algo se assusta, escondido em tudo o que se separa.
Ainda que para ir ali pertinho e logo voltar.

Quem viaja ameaça a despedida.
"Partir é morrer um pouco".
Dizem os franceses, e com razão.
Ainda que para encontrar-se depois, quem parte arrisca despedidas.
Por isso, a emoção subjacente percorre-lhe o mistério e a "região das certezas absolutas".

As grandes despedidas dão-se - contudo - sem que o percebamos.
As que sabemos e sofremos não são despedidas completas, pois a saudade e a memória hão de trazer de volta o sentimento genuíno que agora causa dor.
As grandes despedidas infiltram-se no cotidiano e nos atos corriqueiros de cada dia sem ser percebidas.
Muitos anos depois, vamos verificar que disfarçado em dia-a-dia ali estavam e estalavam saudades antecipadas, vários nuncas dos quais jamais suspeitamos. Nunca se sabe onde está uma despedida.

A não ser muito depois.

(Arthur da Távola)


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